Julho das Pretas reforça luta antirracista e a organização de mulheres negras em diáspora, destaca Tainara Ferreira
Consultora relembra participação em manifestações em Portugal e defende o fortalecimento de redes internacionais e o direito ao Bem Viver
O Julho das Pretas, campanha que mobiliza organizações, coletivos e movimentos sociais em todo o Brasil, ganha ainda mais relevância neste ano ao reforçar a necessidade de ampliar o debate sobre os direitos das mulheres negras, os desafios enfrentados na diáspora e a urgência de pautar a saúde e a qualidade de vida dessa população.
A mobilização culmina no Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latino-Americana, Caribenha e da Diáspora, celebrado neste sábado (25), data instituída em 1992 durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana.
Para a consultora em relações étnico-raciais e de gênero Tainara Ferreira, o mês representa, além de uma celebração da identidade negra feminina, um período de denúncia das desigualdades estruturais e de construção de estratégias para garantir que as mulheres negras tenham direito ao Bem Viver, enfrentando os impactos do racismo, do sexismo e da xenofobia.
"O Julho das Pretas nos convoca a olhar para as mulheres negras como o verdadeiro motor da transformação social, mas exige também que a sociedade pare de romantizar a nossa exaustão. É tempo de referendar nossas trajetórias e denunciar as violências estruturais, mas também de reivindicar o nosso direito de existir com qualidade. A nossa luta não tem fronteiras, até porque o racismo e a colonialidade se reorganizam globalmente para tentar nos manter no lugar da subalternidade", destaca.
Segundo Tainara, o conceito de diáspora precisa ser compreendido para além do deslocamento geográfico, envolvendo também as experiências compartilhadas por populações negras que enfrentam diferentes formas de discriminação em diversos países.
"Falar de diáspora é falar de populações que carregam em si saberes ancestrais e tecnologias de resistência, mas que também compartilham atravessamentos muito duros, como o racismo institucional, a xenofobia e a sobrecarga de trabalho. Por isso, construir redes transnacionais de solidariedade e de afeto político é uma urgência para a nossa sobrevivência."
Manifestação em Portugal reforçou debate
Como parte desse processo de articulação internacional, Tainara participou, no mês passado, das manifestações realizadas em Lisboa, durante o Dia de Portugal – ou Dia da Luta Antirracista –, marcado por movimentos em memória de Alcindo Monteiro, cidadão cabo-verdiano assassinado em 1995 após ser espancado por um grupo de skinheads neonazistas.
A data, historicamente associada à exaltação da identidade nacional portuguesa, passou a ser também um espaço de reivindicação de comunidades migrantes e povos historicamente afetados pelo colonialismo, promovendo reflexões sobre memória, reparação histórica e combate aos crimes de ódio.
Na ocasião, Tainara participou dos atos públicos e mediou a roda de conversa "Sentindo na Pele – Vivências migratórias e letramento decolonial", realizada na Casa do Brasil de Lisboa, discutindo os desafios da população migrante diante do crescimento da xenofobia.
"Estar em Portugal, em diálogo com outras pessoas negras, migrantes e comunidades do Sul Global, deixou nítido que as nossas lutas estão entrelaçadas. O Julho das Pretas é também sobre reconhecer essas pontes, potencializar o intercâmbio de saberes e entender que o enfrentamento ao racismo exige articulação coletiva, estejamos onde estivermos."
O direito ao Bem Viver e ao descanso
Ao longo de julho, organizações negras promovem debates, atividades culturais e ações de incidência política chamando atenção para temas como violência de gênero, equidade racial, acesso à educação, saúde integral e justiça social.
Para Tainara Ferreira, ampliar esse debate é fundamental para que a sociedade avance na construção de políticas públicas efetivas que garantam não apenas a sobrevivência, mas a dignidade plena.
"Nós sobrevivemos diariamente a múltiplas violências geradas pelas hierarquias de raça e gênero, e a sociedade precisa entender que o nosso bem-estar passa, obrigatoriamente, pelo direito ao descanso remunerado, pela saúde física e mental e pela qualidade de vida. O Julho das Pretas é um chamado contínuo para que o Estado e as instituições assumam suas responsabilidades. Nós não queremos ser reconhecidas apenas pela nossa capacidade de suportar a dor; nós exigimos políticas públicas que nos garantam o direito ao Bem Viver."
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